Um pouco de história: origens e evolução do Karate

Imagine um tempo em que você precisava saber uma arte marcial não pelo mero esporte, não para emagrecer, mas para sobreviver no seu cotidiano. Lutar ou morrer. Esse era o contexto de muitos povos ao longo de nossa história, inclusive dos moradores de um pequeno conjunto de ilhas ao sul do Japão. Era o reino independente de Ryukyu, terra natal do Karate. Atualmente, as ilhas de Ryukyu, anexadas pelo Japão, correspondem à prefeitura de Okinawa e possuem uma história e cultura muito particulares e ricas.

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Okinawa tem uma posição estratégica, pois fica no meio de rotas de comércio marítimo de embarcações vindas da China, Japão e Coréia, entre outros países da Ásia Oriental e Sudeste Asiático. Isso propiciou uma influência cultural muito grande desses povos na antiguidade, tanto em sistema de governo, rituais, vestimentas e artes marciais. Com isso, técnicas uma antiga arte tradicional da região, o Tegumi (praticado ainda hoje), foram misturadas com métodos importados de outros países para o reino de Ryukyu, formando uma arte completamente nova. O foco dessa mistura era efetividade, do guerreiro sobreviver a várias abordagens de agressão.

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Sim, isso mesmo: o Karate como conhecemos hoje se desenvolveu de uma amálgama de várias fontes. E você achando que artes marciais mistas eram algo moderno, não é?

Influência chinesa 

É impossível traçar a exata data de origem do Karate. Até porque não foi algo que nasceu pronto, mas desenvolvido ao longo das décadas: cada mestre trazia suas experiências e aprimoramentos que ajudam a moldar as linhas principais da arte. Além disso, por muitos anos, o Karate foi uma arte praticada em segredo, a portas fechadas. Não haviam dojos. Por séculos, houve poucos registros escritos sobre a arte, até que ela passou a ser divulgada fora de Okinawa, no final do século XIX.

Mas voltando no tempo até as raízes chinesas do Karate, as técnicas que vieram a formar essa arte marcial têm origens ainda mais remotas, de cerca de 1500 anos. Isso se considerarmos a lenda do monge zen Bodhidharma, que foi o responsável por introduzir aos monges Shaolin os exercícios que foram a base para o Kung Fu e, consequentemente, o Karate.

A China teve influência muito forte sobre Ryukyu, até mesmo mais do que o Japão. Isso porque durante muito tempo houve uma relação muito próxima de troca entre as duas nações, com comunidades de chineses se estabelecendo em Ryukyu e cidadãos de Ryukyu viajando até a China para estudar as artes e tecnologias. E isso moldou o desenvolvimento do Karate, com mestres chineses ensinando suas técnicas em Ryukyu e praticantes locais procurando aprofundar seu conhecimento na China.

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Exemplo dessa tradição é o kata Sanchin, um dos mais antigos do Karate. Visando melhorar o condicionamento físico, respiratório e a concentração, os monges Shaolin da província chinesa de Fujian, desenvolveram a forma San Zhan (ou San Chien), encontrada até hoje em estilos de Kung Fu, como o Garça Branca. Os mestres de Karate (mais notadamente Kanryo Higashionna) aprenderam o San Zhan levaram para Okinawa, dando suas próprias interpretações para o que veio a ser o Sanchin, um pilar importante para a linha de Karate surgida na cidade de Naha, capital de Okinawa.

A influência das artes chinesas foi tão significativa para a origem do Karate, que muito antes de ter o nome pelo qual a conhecemos, a arte era conhecida como Tode (ou Toudi, no dialeto de Ryukyu), que significa “mão chinesa”. Outro nome pela qual a arte era conhecida era simplesmente Te (mão), que às vezes servia como um sufixo para as diferentes linhas de Tode que eram praticadas. Assim, o Tode praticado em Naha podia ser chamado de “Naha-Te”, enquanto a escola da cidade de Shuri era “Shuri-Te” e em Tomari era praticado o “Tomari-Te”.

Uma arte em evolução

O Tode não permaneceu preso em suas raízes chinesas. Os mestres residentes Ryukyu/Okinawa eram tanto guerreiros como pesquisadores. Muitos dos katas mais tradicionais beberam dessa fonte multicultural, mas os praticantes iam além. Eles estudavam as técnicas, as mecânicas do corpo, e adaptavam e interpretavam tudo visando, antes de tudo, desenvolver uma arte direta e mortal, uma defesa pessoal eficiente.

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Um fator importante da consolidação do Tode e de sua arte-irmã, o Kobu-Do, foi a necessidade de autodefesa dos moradores de Okinawa sem o uso de espadas e outras armas tradicionais. Isso porque o porte de armas foi proibido na ilha em duas ocasiões. A primeira foi em 1507, pelo rei Shō Shin, quando todos os aji (senhores feudais), tiveram que entregar suas armas. A outra foi o banimento total das armas em 1609, durante a dominação de Ryukyu pelos japoneses.

Com essas restrições, a solução para autodefesa, então, era desenvolver lutas com as mãos vazias ou com instrumentos pouco convencionais, como remos e ferramentas de lavoura (Kobu-Do). Aparentemente, a pessoa estava desarmada, mas seu potencial defensivo era muito grande. Assim, a arte foi se desenvolvendo de forma velada, mas se emaranhando na cultura da região.

Após a Restauração Meiji no Japão e a anexação formal das ilhas de Ryukyu ao país, em 1879, o Tode começou a ser praticado mais abertamente. Vários mestres contribuíram para a modernização e divulgação da arte, como Kenwa Mabuni, Chōjun Miyagi, Motobu Chōki, Kanken Tōyama e Kanbun Uechi, entre outros.

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Um passo importante foi dado pelo mestre  Itosu Ankō, que em 1902 trabalhou pela introdução do Tode no currículo do sistema educacional de Okinawa. Ele desenvolveu katas introdutórios, mais fáceis de ser assimilados por crianças, e advogou a favor dos benefícios da prática do Tode para autoridades japonesas. Mas foi um dos seus discípulos, Gichin Funakoshi, que logrou êxito em levar o Tode para fora de sua terra natal, passando a ensinar a arte na capital japonesa, em Tóquio.

Mudança de nome: Tode vira Karate-Do

Funakoshi se deparou com alguns desafios. Uma arte chamada “mão chinesa”, cheia de técnicas com nomes remetendo à cultura chinesa, não faria muito sucesso no Japão, que era país rival da China. Além disso, o ensino precisava ser sistematizado para que pudesse ser transmitido para grandes grupos e escolas, com um grau de progressão definido. Então, foram mudadas nomenclaturas (como a série de katas Pinan, que passou a se chamar Heian na escola da Funakoshi); foram adotados o sistema de faixas do Judo, com kyu e dan para determinar o nível do praticante; e o uniforme de treino do Judo, chamado dogi ou keikogi (vulgarmente no Brasil conhecido como kimono) foi adotado e adaptado para o Karate.

Reunião de mestres em 1930.

Reunião de mestres em 1930.

Para o problema do nome da arte, a solução foi um jogo de palavras eficaz. Vários kanji, ideogramas usados na escrita chinesa e japonesa, têm mais de uma pronúncia para os sinais. Os caracteres que formam a palavra “Tode” podem ser lidos de uma forma alternativa como “Karate”. Foi dessa pronúncia que o mestre usou para modificar o primeiro kanji, “kara”, para outro que possuía um significado diferente, mas o mesmo som. Foi introduzido no lugar o kanji que significa “vazio”. Assim, a nova escrita de Karate passou a significar “mão vazia” em vez de “mão chinesa”, destacando a faceta filosófica da arte. A mudança foi rapidamente adotada pelos mestres de Okinawa.

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Ainda como um adendo para a introdução do Karate no Japão, era preciso que ele fosse reconhecido como um “budo”, ou seja, uma arte genuinamente japonesa. Após a modernização japonesa ocorrida em consequência da Restauração Meiji, as artes marciais tradicionais ganharam uma repaginada para sobreviver na nova era: deixaram de ser apenas artes de guerra para ganhar uma apelo mais voltado para o desenvolvimento pessoal dos praticantes. Isso levou troca da palavra “jutsu” (técnica) por “do” (caminho). Kenjutsu virou Kendo, caminho da espada; Jujutsu virou Judo, caminho da suavidade; Kyujutsu virou Kyudo, caminho do arco; e assim por diante. Logo, a arte vinda de Okinawa passou a ser Karate-Do, caminho das mãos vazias.

O Karate-Do ainda passou por uma série de evoluções desde que deixou de ser uma arte restrita a Okinawa. Antes, os treinos consistiam apenas na repetição dos katas exaustivamente, por anos a fio. Tanto que o mestre Anko Asato possuía a filosofia de “um kata, três anos”, tamanho era o rigor do treino. Mas ao ser massificado e ensinado em escolas, a didática precisou de alguns incrementos para ser mais palatável e fácil de aprender. Daí surgiram o kihon (aplicação das técnicas básicas em sequência) e o kumite (aplicação das técnicas contra um adversário), que junto com o kata formaram o tripé da metodologia moderna.

Também foi nessa modernização que o Karate-Do ganhou uma faceta esportiva em algumas escolas, com competições e campeonatos. Ainda, algumas técnicas mais voltadas para este tipo de competição, como o mawashi geri, foram incorporadas.

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E com tudo isso, a arte das mãos vazias estava pronta para ganhar o mundo. E ganhou. A partir de sua consolidação no Japão, a arte foi sendo espalhada por todos os continentes. Atualmente, segundo a Federação Mundial de Karate (WKF), são mais de 100 milhões de praticantes de Karate. Mas com a grande quantidade de organizações da arte espalhadas pelo mundo, de linhas distintas, sem contar as escolas independentes, com certeza o número é muito maior. E, no que depender de nós, por tudo de bom que o Karate-Do tem a oferecer, o número vai crescer muito mais.

E o resto é história. Há muito mais para contar, porque o Karate-Do é rico, diverso e interessante demais, com muita coisa para descobrir e compartilhar. Mas fica para os próximos posts.

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Fontes e leitura complementar:

Caratê – Artigo da Wikipédia

How Karate Got Its Name – Karate by Jesse

History of Okinawan Karate – Karate and Martial Arts with Weaponry

Sanchin Kata – Ancient Wisdom – YMAA

San Zhan & Sanchin – Youtube

Bodidarma – artigo da Wikipédia

Bubishi: The Classic Manual of Combat (Livro)

Karate-Do: O Meu Modo de Vida (Livro)

Sobre Bruno Chagas

Faixa-preta shodan pela Associação Karate-Do Tanaka.
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